Evangelização da política ou fim da misericórdia?

Professor Altemar Lima. Educador e analista político.

A “evangelização” da política é um fenômeno atual e com graves consequências sociais e políticas.
A Igreja Católica que até meados do século passado representava o mais aberto conservadorismo, tanto na educação, como no plano filosófico, servindo de justificação para as ações da direita política e, como força espiritual hegemônica, insufladora de sucessivos golpes contra a democracia, perdeu protagonismo, tanto que atualmente - antes tarde do que nunca- tenta abraçar a agenda socioambiental e a defesa dos direitos humanos, como forma de retomar seu protagonismo secular junto à sociedade moderna!
A propósito disso, o cientista americano Carl Sagan, (1934-1996) em seu livro extraordinário “Uma visão pessoal da busca por Deus” afirma que uma das únicas possibilidades de salvação do planeta seria possível se as religiões, dentre elas o Cristianismo, introduzissem em suas liturgias, em seus discursos e suas agendas pastorias, a questão ambiental,  como condição indispensável para preservação da vida humana na Terra.
Por outro lado, a radicalização de interpretações bíblicas dos “novos evangélicos” (Malafaias e companhia), principalmente os da prosperidade, que têm na comunicação de massas e nas redes sociais o amplificador ideal para os seus vitupérios e para o aumento vertiginoso do seu patrimônio, têm assumido papel de ponta na defesa de uma agenda de negação de direitos sociais e de absurda intolerância com a diversidade, propalando, nos seus púlpitos eletrônicos, um discurso de ódio inspirado na leitura ao pé da letra de passagens bíblicas. Professam claramente a escatologia do ódio!
Verifiquem que a direitizaçao dessas denominações religiosas tem assumido postulações claramente inquisitoriais, almejando a adoção de práticas que foram há muito tempo banidas pelo estado moderno.
Além disso, esses numerosos segmentos têm saído do plano do discurso, para a execução aberta da violência física e também simbólica.
Aceite-se ou não, os evangélicos atuais (não me refiro à sua totalidade ainda) tentam impor sua agenda moral e agora política, como referência unívoca para a obediência e subordinação de toda a sociedade brasileira, apesar de sua objetiva diversidade de gênero, culturas e pensamentos.
Saindo-se do ambiente do convencimento para o confronto aberto com as ideias que não lhes são favoráveis.
Não são incomuns os episódios de queima de livros, de manifestações públicas de massa, cujo objetivo central é a afirmação da supremacia de seu pensamento, de seu etnocentrismo, e de suas “verdades”, como claro contraponto  às manifestações sociais por mais direitos, realizadas pelas minorias e pela sociedade “civil organizada.”
A famosa “Marcha para Jesus” é um exemplo disso.
Bolsonaro chegou surpreendentemente a presidente da república graças à militância desses segmentos; não tinha e não tem plano de governo, e não terá, pois é inepto, tem apenas uma pauta moral extremista e conservadora, identificada com os segmentos evangélicos, apesar de suas inquestionáveis ligações com o submundo do crime organizado.
Esses segmentos não acreditam e desprezam fatos, aferram-se exclusivamente as “verdades” que lhes interessam, que são próprias da semântica conservadora.
Em face disso, as elites econômicas brasileiras sempre arredias com as conquistas sociais, por mínimas que sejam, aproveitam-se da atual hegemonia desse pensamento conservador, para fazerem reformas que priviligiem a sacralização do mercado, em detrimento da subtração aberta de direitos sociais dos segmentos  mais pobres da população.
Outrossim , vendem inescrupulosamente as riquezas nacionais, comprometendo o futuro das próximas gerações.
Do ponto de vista ideológico, os segmentos sociais submetidos a essa “doutrinação evangélica,” identificam qualquer movimento em defesa de direitos, como uma atividade comunista e ateia! Por isso, são raivosamente contra! O que representa um grave malogro e um equívoco bestial, além de demonstrar falta de estudo e desconhecimento dos processos históricos.
Assim, esses segmentos apoiam de modo insciente e também de modo consciente, a subtração dos seus próprios direitos, sem conseguirem identificar o homem como construtor da história, apoiando-se teoricamente apenas em um concepção que nega a teoria, a ciência, a diversidade e a complexidade da sociedade moderna.
Ao mesmo tempo em que o conservadorismo moral assume a centralidade das ações políticas, assumindo governos, formando bancadas no Poder Legislativo etc. ele esforça-se também para  suprimir o dissenso inexoravelmente presente em uma sociedade de classes e erigida com base em graves  desigualdades sociais.
Parte desses segmentos é tão equivocada que clama por intervenção militar, o uso da irracionalidade da força, como forma de impor pelas  armas uma Constituição etérea, salubre, isenta das contradições humanas e terrenas. Nada mais obscuro, absurdo e incongruente.
Ao que parece, face à demora do retorno de Cristo, (que tem história e pregou a tolerância, a partilha, a amor aos pobres, que enfrentou as injustiças do Estado romano) a evangelização da política, ou melhor, sua direitizaçao, assemelha-se, na verdade, à completa perda da misericórdia, um dos fundamentos do Cristianismo, principalmente com os que mais precisam: os pobres, os desvalidos, os índios, os negros, os gays, o próximo.

Tudo isso leva a crer que esses segmentos querem que façamos um improvável e temeroso retorno às cavernas! Mas, com fé em Deus, cedo ou tarde, melhor que seja agora, os cidadãos da República, evangélicos e católicos, precisam fazer o seu enfrentamento no plano filosófico, material e político!O

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Prefeitura promove atualização do CadÚnico para migrantes e refugiados em São Luís

Ex-deputado do ‘crime da motosserra’ será julgado pelo 1º Tribunal do Júri

Merval Pereira - Alimentando fantasmas